June 18, 2024

A implosão do FTX no final de 2022 deixou uma marca significativa no mercado de criptomoedas, levantando questões sobre a governança e a transparência das empresas desse setor. Uma investigação recente revelou que muitas dessas empresas operam fora das normas comumente aceitas e não possuem estruturas adequadas para evitar outra crise no futuro.

A investigação se concentrou em 60 empresas do mercado de criptomoedas que atendiam a critérios específicos, como serem listadas publicamente, terem uma avaliação de mais de US$ 1 bilhão em captação de recursos privados ou exercerem influência significativa no setor em janeiro de 2023. A Bloomberg, responsável pela investigação, fez perguntas e pedidos de participação e confirmação de informações públicas a cada uma dessas empresas ao longo dos meses de janeiro a maio de 2023. Além disso, dados foram coletados junto à Silvergate Capital Corp., antes do fechamento do banco.

Uma das descobertas mais alarmantes é a falta de conselhos independentes nessas empresas. De acordo com o relatório publicado em 15 de maio, apenas 63% das empresas de criptomoedas pesquisadas possuíam um conselho de administração independente, ou seja, contavam com pelo menos um membro não executivo. Um exemplo surpreendente disso é a própria FTX, que não estabeleceu um conselho até os momentos finais de sua existência. Mesmo próximo ao colapso, em novembro de 2022, o conselho da FTX contava apenas com três membros.

Ter um conselho de administração independente é considerado um requisito básico para grandes empresas, pois oferece uma análise imparcial da situação e contribui para uma governança mais sólida. No entanto, devido à falta de regulamentação no mercado de criptomoedas, muitas empresas não têm motivação para atender a esses padrões do setor, conforme revelado pela investigação da Bloomberg.

Outra questão importante é a falta de auditorias independentes nas empresas de criptomoedas. A pesquisa constatou que cerca de metade das empresas investigadas (52%) não utiliza atualmente um auditor independente terceirizado. Esse dado é preocupante para uma indústria que tem se concentrado em promover a transparência em 2023.

Embora algumas empresas tenham alegado dificuldades para contratar auditores, muitas vezes devido à falta de compreensão sobre blockchain e à relutância decorrente de escândalos recentes, é esperado que investidores sofisticados exijam tanto auditorias independentes quanto conselhos independentes.

Um exemplo desse problema ocorreu com a Mazars, empresa sediada em Paris, que decidiu se afastar da indústria de criptomoedas em dezembro passado, após trabalhar com a Binance e a Crypto.com. A Mazars citou “preocupações em relação à forma como esses relatórios são entendidos pelo público”. A Binance recebeu críticas intensas quando seu CEO, CZ, afirmou que o Agreed-Upon-Procedure (AUP) realizado pela Mazars era uma auditoria completa. Posteriormente, a Mazars removeu o relatório AUP sobre a prova de reservas da Binance de seu site algumas semanas depois. Desde então, tanto a Crypto.com quanto a Binance contrataram novos auditores, embora não tenham divulgado publicamente seus nomes.

Essas descobertas ressaltam a necessidade urgente de um maior rigor na governança e transparência das empresas de criptomoedas. A falta de conselhos independentes e auditorias adequadas representa um risco significativo para os investidores e para a estabilidade do mercado como um todo. Reguladores e autoridades governamentais precisam atuar para estabelecer padrões claros e exigir a conformidade das empresas desse setor, a fim de evitar crises futuras e proteger os interesses dos investidores. Somente com uma governança sólida e transparência adequada será possível construir uma indústria de criptomoedas confiável e sustentável.

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